Zé Saramago e sua vovozinha

 

Não morro de amores por todos os escritos de José Saramago. Acho muitos deles sem sutileza, embora outros, por vezes, sejam poéticos ou imaginosos. Além disso, a frase dele é áspera, servindo muitas delas para exemplos de como não se deve escrever  funcionalmente. Explico-me: se, no Brasil, um candidato a cargo que exija redação apurada ou pretendente a uma vaga em universidade de primeira linha escrever com o jeito de Saramago, dificilmente terá êxito. Um examinador atento encontrará naquele estilo defeitos mortais quanto à clareza, concisão, coesão e coerência, inaceitáveis fora do âmbito estritamente literário. Apesar disso tudo, ou mesmo por causa disso tudo, só o irritadiço Saramago abiscoitou, escrevendo em português,  o belo Prêmio Nobel, que representa o salário anual de dezenas desses examinadores atentos e sem nenhuma possibilidade de alcançar a mínima glória, até mesmo em sua paróquia natal...

Tudo isso a propósito de uma “Carta a Josefa”, que circula por aí, muito bem pontuadinha, muito bem arrumadinha, sei lá se pelo próprio Saramago, se por algum de seus letradíssimos admiradores.

O fato é que Josefa é a avó de Saramago; ele apenas o “Zé”, como está no final do texto.

Começa assim:

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me  histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave de tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

E vai, por páginas e páginas, traçando o perfil moral e físico de uma camponesa de Portugal, usando palavras que muito provavelmente só os portugueses de longe dos centros urbanos  de hoje entendem.

No pequeno trecho que transcrevi, soam estranhas para nós:

- encortiçados > duros, ásperos, como a cortiça – casca do sobreiro, com que se fazem as rolhas;

- restolho > parte inferior do trigo ou da cevada, que fica presa à terra, depois do corte, que os camponeses ainda aproveitam para queimar;

- albufeiras > grandes lagos formados nas praias pelas marés. Com o emprego desse vocábulo, Saramago quis confirmar como era penosa a tarefa da avó de buscar água de muito longe;

- bácoros > leitõezinhos. Para evitar que eles se enregelassem nos invernos rigorosos, a avó do Zé punha-os no quentinho de sua própria cama.

E a mais emblemática de todas: rapariga.  Em Portugal, mulher nova, adolescente.  Em vastas regiões do Brasil, incluída a nossa, concubina, meretriz. Lembro-me do estranhamento que era saber-se, em outros tempos, que alguém mantinha uma rapariga... Mulher teúda e manteúda.

Por estas e outras, penso ser um modismo essa admiração algo desproporcional por toda a obra de Saramago. Com exagero, ouso até dizer  que sua leitura verdadeiramente profunda exige tanto trabalho  quanto o que dá enfrentar um  livro em idioma estrangeiro.

Dois apostos aplicados à velha avó me encantaram: trave de tua casa, lume de tua lareira – ou seja, ela é que manteve a integridade da casa, do lar; ela é que manteve acesa sempre a lâmpada da vida familiar.

Assim, cada vez mais se evidenciam as diferenças do que dizem os de além-mar e o que dizemos nós, usuários todos do rude e doloroso idioma em que Camões chorou o gênio sem ventura e o amor sem brilho, conforme se lia num belo soneto de Olavo Bilac, de que ninguém mais toma conhecimento.

Com o sal grosso da malícia impune, circulam por aí substanciosas listas de termos que distinguem cada vez mais as maneiras portuguesa e brasileira de expressão. Lembro alguns, menos cabeludos,  com a forma usual no Brasil em primeiro lugar:

Cafezinho – bica

Fila –  bicha

Pãozinho francês – cacete

Crianças em grupos – canalha

Adolescente – puto

Calcinhas femininas – cuecas

Dentista – estomatologista

Professor particular – explicador

Comissária de bordo – hospedeira

Garis, varredores de ruas – almeidas

Cego – invisual

Chiclete – pastilha elástica

Injeção – pica

Garçom – empregado de mesa

Impostos – propinas

Alô? (ao telefone) – está lá?

Você já deve ter percebido como disso tudo surgem situações de uma comicidade embaraçosa. Nem me atrevo a escrever como é que qualquer um do povo português diz coisas simples, por exemplo: “Vou aplicar uma injeção nas nádegas do garoto”, ou “Vou dar uma palmada no bumbum de uma criança”... Só transcrevo uma frase que apanhei numa televisão de lá: “Sexo seguro? Use durex!”

Complicado, não? Nossas divergências linguísticas são bem mais profundas do que a grafia de algumas palavras com ou sem hífen, do que usar, ou não, o trema.

 

22/04/2017
emelauria@uol.com.br

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