CRISTO NÃO NASCERIA NA IRLANDA

 

            Terríveis erros de avaliação se cometem por causa do bairrismo. Não que o natural apego ao lugar onde se nasceu ou onde se passou grande parte da vida seja em si um mal. Entre reconhecer esse legítimo sentimento e procurar por todos os meios supervalorizar algumas virtudes dos lugares e subvalorizar os muitos defeitos – vai distância enorme.

            Estou lembrando agora a particular maneira de um menino encarar e desnudar o bairrismo, mesmo não sabendo o nome do que encarava e do que desnudava.

            Era a pobre escola elementar de uma pobre cidade da Irlanda católica, onde o bairrismo respondia pelo sonoro nome de patriotismo. Lá não só se devia amar muito a pátria, mas também detestar definitivamente os ingleses, dominadores por tantos séculos.

            Pois um dos expoentes daquele bairrismo extremado lecionava a alunos pobres daquela pobre escola. E um dia, como tarefa rotineira para a classe do menino que ainda viraria escritor, o professor propôs  este mais que tendencioso tema de redação: “Por que......................(aqui vai um daqueles nomes imensos, impronúnciáveis e inguardáveis) é  a cidade mais católica da Irlanda?”

            De um modo ou outro, com maior ou menor inspiração, todos os meninos cumpriram a tarefa, observando aquele pobre lugar sob o esperável ângulo sugerido pelo professor. Todos, menos um – sem o qual não haveria nem futuro escritor nem este meu relato.

            Deixado de propósito por último para ler em voz alta seu trabalho, como sugere a técnica narrativa  e ainda como forma subsidiária de castigo, o futuro escritor desenvolveu uma tese que  desde a primeira linha até a última só foi engrossando o pescoço do professor, crispando suas mãos e avermelhando de raiva o seu rosto.

Começa com esta ideia a atrevida exposição: a cidade merecia o título de mais católica da Irlanda  não porque ali vivesse gente santa, mas porque a igreja não tinha goteiras. Aquele miserável clima de constantes chuvas, acompanhadas no inverno por vento intenso e fortes nevascas, deixava as pessoas sempre de narizes vermelhos de resfriado, a um passo da tuberculose. Nas casas  as goteiras formaram invencíveis poças d’água e as paredes escorridas estavam tomadas pelo mofo e pelo lodo.

Quem podia, caía fora daquele lugar o mais cedo possível, uns indo trabalhar na inimiga Inglaterra, outros partindo para a América.

Não, a cidade jamais teria sido escolhida por Cristo como o lugar de sua encarnação terrena. Cristo era saudável, jovial, sem tosse nem catarro. Bastava relembrar sua curta vida de trinta e três anos para saber como ele era de pele queimada de sol, vestia peças simples e alegres, sentia prazer em trabalhar com seu velho pai ao ar livre. Não pensou em medo do frio ou da chuva ao afastar-se da família no caminho de volta do Templo, quando não tinha mais do que doze anos. Gostava de andar com sua turma de pessoas tão desiguais, apreciava a boa comida e um bom vinho. Não se envergonhava de aceitar convites e favores dos cobradores de impostos; entendia os pecadores, até as prostitutas . Visitava os amigos e até ressuscitou um deles, muito chegado. Entendeu as razões de Marta e de Maria e expulsou vendilhões do Templo, apesar de quase sempre ser manso e pacífico de coração...

              Em sua vida sempre houve sol, calor e claridade; apreciava andar pelos campos e pelas cidades; ensinava a todos, conversava até com samaritanos e nem se importava  em saber onde recostaria a cabeça para descansar porque sabia que em seus breves repousos nunca o perturbariam a chuva, a umidade. Se fosse o caso, sacudiria o pó das sandálias e até comeria sem sequer lavar as mãos.

              Não, Cristo jamais nasceria na Irlanda. Muito menos naquela cidade de nome impronunciável onde as pessoas ficavam muito mais tempo na igreja para se abrigarem das intempéries.

              O professor, às portas da apoplexia, nem sabia pensar em que castigo exemplar daria àquele atrevido, insolente, desrespeitador. Tanto não sabia, até perceber que o delito fugia à sua alçada. A solução final cabia à autoridade superior, o diretor da escola, a quem encaminhou o atrevido, insolente, desrespeitador.

              Bela a figura deste outro professor, que no decorrer da leitura que fazia da insólita redação, levantava os olhos e encarava o autor, posto ali à sua frente na condição de réu. Terminou de examinar aquela terrível e herética  interpretação livre de passagens bíblicas e só indagou do rapazinho:

              “Foi você que escreveu isso?”

              “Sim, senhor.”

              “Sozinho?”

              “Sim, senhor, durante a aula.”

              “Então você precisa mudar de classe!”

              O esperável castigo, de que nem São Francisco de Assis poderia livrá-lo, transformou-se em aprovação e estímulo tácito. Nascia ali um genuíno escritor que os tempos futuros reconheceriam e aplaudiriam.

              Um escritor irlandês que se fez universal contando na América, sem bairrismo, as quinquilharias de sua chuvosa cidade natal.

 

08/04/2017
emelauria@uol.com.br

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