A prima demente e outros casos miúdos

 

Era a primeira vez que ouvia alguém empregando aquela palavra: demente.

Quem o fazia era a mãe, pessoa de pequeno vocabulário, mas sensível, respeitadora dos sentimentos alheios.

- Demente, meu filho, quer dizer meio atrapalhada da cabeça, meio gira, um pouquinho louca.

- E por que não dizem que ela é louca?

-  Porque não é educado. Se você disser à tia Mariana que a filha dela é louca, ela ficará muito triste com você.

- E seu eu disser que ela é demente, só por isso ela fica menos louca?

A mãe sabia que se desse trela ao menino, aquele assunto não acabaria tão cedo. A cada explicação, lá viria ele com novo argumento – o que sempre  aborrecia a  paciência dos outros. Ela não: era generosa, procurava satisfazer a curiosidade do filho, que ia muito bem na escola.

- Então já sabe. Não empregue a palavra “louca” perto da tia. Logo-logo a  Zenaide vai embora, internada num sanatório, e o assunto morre, perde o sentido de novidade.

E assim foi. Zenaide foi embora, ficou anos no sanatório (na verdade, um hospício) e o menino se esqueceu dela e daquela palavra tão chique – “demente”. Nunca mais ouviu alguém empregando-a numa conversinha normal.

Até que ela voltou, sã na aparência, como que  recuperada de qualquer transtorno mental. Não estava propriamente liberada, mas vinha para casa a título de experiência, mais um passo no longo processo de reintegração na vida familiar.

O rapazinho continuava indo bem na escola, já cursava o colegial, então chamado “científico”, e pouco se  interessou pelo retorno da prima.

- Bem que você podia fazer um favor à tia Mariana... (Era a mãe, jeitosa no falar, como se as coisas já não estivessem acertadas entre ela e a irmã.)

- Que favor, mãe?

- Sabe, tia Mariana sente-se muito sozinha à noite com a Zenaide. Ela precisa de alguém que durma lá na casa, que troque umas palavrinhas com ela, depois que a filha toma aquele mundo de remédios e dorme que nem uma pedra. Que a deixe com a sensação de segurança.

- Mas eu, mãe?

- Você, meu filho. Será por pouco tempo, até que tudo entre nos eixos na casa da tia. Ninguém mais da família poderia fazer esse pequeno obséquio.

Constrangido, emburrado, mas obediente, lá foi o filho dormir na casa da tia. Pelas oito e meia, Zenaide, sempre de pouquíssima fala, era dopada pela mãe e minutos depois dormia a sono solto. O rapazinho conversava um pouco com a tia, fazia seus deveres de escola e logo depois das dez se recolhia ao quarto onde dormia sozinho e em paz..

Um mês, dois meses se passaram sem o mínimo  incidente. Tão sem incidente, que tia Mariana o dispensou daquela missão sem graça de dormir fora de casa, sem nada fazer, sem nada auxiliar.

Aí se deu o que você já desconfiava: um dia, quando a mãe costurava em silêncio, tendo ao lado duas auxiliares, Zenaide começou a movimentar o corpo, num movimento como de pêndulo. Depois caiu num choro sentido, monótono, sem fim. Aquilo durou uma hora, duas horas, varou a noite, o dia seguinte. Seu tronco ia e vinha, como fazem os judeus em oração, junto ao Muro das Lamentações. E chorava sentidamente, sem pausa, sem palavras.

A mãe chamou o médico da família, que se pôs em contato com o sanatório. Vieram buscar Zenaide com uma ambulância. Ela foi, movendo-se pendularmente, pendularmente, chorando e com os olhos perdidos sabe-se lá onde. Puseram-lhe uma desnecessária camisa-de-força e lá   ela foi de volta para o hospício de Franco da Rocha, o Juqueri. Nunca mais voltou, morreu por lá, foi enterrada no cemitério de lá

Anos mais tarde, o irmão sobrevivente de Zenaide providenciou o traslado de seus ossos para o túmulo da família. Está lá, com a mãe, com o pai, com a irmã,  com os avós. Todos se esqueceram de todos, menos o rapazinho, hoje um setentão de boa memória.

 

A CASA DO ZÉ BRASILEIRO

Era feia e pobre de aspecto e tinha uma particularidade notável: quando se abria para dentro a porta da rua, o desnível era de quase  meio metro. Era como se tudo estivesse pronto para receber um assoalho de tábuas, que nunca foi posto. Então as pessoas precisavam apoiar-se numa folha da porta e descer com muito cuidado uma precária escadinha. No chão de terra batida, irregular, as pernas da mesa não encontravam equilíbrio, assim como as cadeiras, que não tinham onde se assentar . Ninguém varria aquela sala, um verdadeiro lixo.

Da sala, duas aberturas davam para os quartos e outra para a cozinha. Tudo em desnível.

Ninguém teve coragem de perguntar ao Zé Brasileiro duas coisas:

- quando ele ia dar um jeito naquela vergonhosa sala, prova de sua preguiça insuperável;

-  por que ele tinha o apelido de Brasileiro.

 

A MÁGOA DA CLÉLIA

Aloirada, corpulenta, olhos muito grandes, como que sempre arregalados. Era de uma cidade vizinha e aqui estava para entrar no ginásio, no único ginásio que então havia por aqui.

Já terminara o grupo escolar e viera para fazer o curso de admissão (particular) da bravíssima, conceituadíssima, disputadíssima professora.

As aulas eram de manhã, das sete às dez e meia (“sete horas são sete horas, não sete e cinco ou sete e dez”, advertia a mestra  mais que metódica).  Ninguém tinha coragem de chegar atrasado, muito menos de faltar ou pedir para sair mais cedo. O castigo-padrão era agarrar o/a atrevido/a pela costeleta  e puxar, puxar aqueles cabelinhos  até os olhos ficarem cheios de lágrimas.

À tarde, mal saídos das aulas da tarde, com ela mesma,  no Cândido Rodrigues, lá íamos de novo para um reforço no admissão, porque “entrar no ginásio não é coisa fácil, muito candidato para poucas vagas” – quantas vezes ouvimos aquilo?

Chegou o tal exame de admissão, com provas escritas e orais. Português, Matemática, História, Geografia e Ciências, a cargo de professores cujos nomes nos soavam estranhos ainda: Hersílio, Abdiel, Vinício, Odilon e Neje.

Claro que a turminha toda preparada pela conceituadíssima professora conseguiu vaga com um pé nas  costas. Mas a Clélia teve a desfaçatez de só tirar nota seis e meio em Ciências.

- Seis e meio? Você me envergonha! Com que cara vou olhar para o Dr. Neje?  Ainda mais que este é o último ano com prova de Ciências no admissão?

A mestra ia falando e se aproximando da emudecida e petrificada Clélia. Os cabelinhos de sua costeleta foram agarrados com mais vigor e puxados com mais energia, até que seus olhos ficassem marejados  e sua boca soltasse um gemido, antes que o pranto brotasse muito menos de dor do que de um forte sentimento de injustiça.

 

05/01/2008
(emelauria@uol.com.br)

 

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