Trechos de algumas crônicas do autor,

publicadas em "Gazeta do Rio Pardo",

em 1982 e 1983, referentes à vida e à obra de

Euclides da Cunha.

 

Obs.: a barra (/) indica parágrafo.

Maio de 1982.

"Bem-vindo, caro amigo.

Era preciso partir. Missão encerrada. O funcionário do Estado continuaria a sua vida de ‘engenheiro errante’. / 1901. Fins de maio. Frio. / O trem apitou longamente. Anninha, a mulher de Euclides, embalava Manoel, com cinco meses. Solon, o filho mais velho, tinha o nariz achatado contra o vidro fechado da janela do vagão. O dr. Euclides segurava Quidinho, sentado no seu colo. Olhava pela última vez, ali perto, sobre o rio Pardo, a sua grande obra: a ponte reconstruída e recém-inaugurada. Olhava o seu escritório tosco de folhas de zinco, sombreado pela enorme paineira, onde passara a maior parte dos dias, dos três anos vividos em São José. Um disfarçado orgulho se confundiu com a tristeza de abandonar o recanto abençoado, que lhe dera paz para escrever. / O trem apitou novamente, movimentando-se, acompanhando o correr do rio que acalentara e apaziguara o irrequieto e genioso gênio. / Na sua bagagem estavam centenas de papéis manuscritos: um enorme calhamaço: um livro concluído no pátio de obras à beira-rio, que absorvera todas as horas livres do engenheiro. / Recostado na poltrona, absorto, preocupava-se. Precisaria de um editor para o livro. Temia a não aceitação daquele tema brasileiro, cuja movimentação se passara nos desconhecidos sertões da Bahia, tão longe do europeizado litoral. Encontraria ele um editor? Se não encontrasse apoio e interesse, ele publicaria seu livro em capítulos, num jornal: seria mais um folhetim. / O trem distanciava-se de São José, levando o homem de poucas palavras e poucos amigos: o pobre e desconhecido dr. Euclides da Cunha. Mas o calhamaço manuscrito, na bagagem, o levaria à glória e à imortalidade. (...) / Em novembro ou dezembro de 1902, o seu livro foi lançado. Aceitação. Sucesso de venda e crítica. (...) Uma coroa de fama, de glória, de imortalidade coroou o escritor e a cidadezinha de São José do Rio Pardo, que se projetaram no mundo. / (...) Do Rio de Janeiro, em 1908, cansado das andanças sem fim e da agitação da cidade grande, almejou, novamente, o calor do lar e da paz. Escreveu a Escobar: ‘(...) Digo-te mais: a minha maior aspiração seria deixar de uma vez este meio deplorável, com suas avenidas, os seus automóveis, os seus smarts, as suas fantasmagorias de civilização pesteada. Como é difícil estudar-se e pensar-se aqui!... Que saudades do meu escritório de folhas de zinco e sarrafos da margem do rio Pardo! Creio que se persistir nesta agitação estéril não produzirei mais nada de duradouro.’ "

 

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Euclides da Cunha
- quadro de Germinal Artese -

 

Maio de 1982.

"(...) E ele voltará em agosto, depois de 81 anos anos de partida. Voltará, não mais apressadamente, como o funcionário do Estado, mas como o herói saudoso do recanto de paz. E ficará para o repouso eterno, acalentado por toda uma cidade agradecida. Uma cidadezinha que ascendeu com a sua ascensão, e que sempre o esperou. Ansiosa, esperou o momento de reintegrar, ao corpo-cinzas, a alma que aqui ficou. / Netos de Euclides, há anos, quase no anonimato, aqui estiveram, numa semana de festas. Observaram. Participaram. Sentiram a incomum veneração do povo à memória do seu avô, mesmo desconhecendo a sua obra. Uma veneração não efêmera, porque nascida e alicerçada num profundo sentimento de gratidão. Gratidão ao escritor que tirou São José da insignificância das muitas cidadezinhas, projetando-a universalmente. Veneração transformada em culto, que se institucionalizou nestes setenta anos de homenagens. / E os ilustres visitantes, agradecidos, antes de partir para o Rio de Janeiro, deixaram aos rio-pardenses uma corbelha de flores. E desejaram e autorizaram que os restos mortais de seu avô aqui repousassem para sempre, às margens do Rio Pardo, ao lado da cabana, nesta terra que lhe deu guarida e paz, e que continuará lhe dando a eternidade de glórias. / Breve, ele estará conosco. E a cidade inteira, num clamor uníssono, o saudará: ‘Bem-vindo, caro amigo!’ "

 

15 de agosto de 1982.

"(...)

Euclides voltará para casa. Voltará para ficar. (...) Nosso bem-querer o vivificará, vivificando os amigos de então. E o veremos sorridente, chegando com o seu Quidinho querido, rodeado dos trabalhadores da ponte e dos amigos sempre citados: o Chico Escobar, o Álvaro, o João Moreira, o Jovino, o Mateus... (...) Sorridente, receberá o afago de mil mãos, o agitar de bandeiras, o calor dos vivas, palmas, lágrimas e risos, flores, cantos, contos e falas amigas... (...) E encontrará o mesmo ranchinho pobre de zinco, agora protegido pela redoma, ao lado das velhas mangueiras. Ouvirá o sussurro do rio, agora represado, e o cantar dos pássaros. Observará a velha ponte, que resiste. (...) Cansado do longo esperar pela volta, descansará no seu leito monumento de concreto, abraçado ao desventurado filho, ao lado da cabana. (...). E todos os rio-pardenses estarão aclamando: ‘Bem-vindo, Euclides, nosso herói’. "

 

22 de agosto de 1982.

"Se você não participou, perdeu um dos mais belos e importantes acontecimentos deste século, em São José do Rio Pardo: a apoteose da inumação dos restos mortais de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho, no mausoléu, beira-rio. / Foi comovedor este acontecimento, na tarde de 15 de agosto de 1982. (...) / Na Matriz florida e lotada, três corais acompanhavam a cerimônia fúnebre oficiada pelo bispo diocesano. (...) As duas urnas, carregadas por mil mãos, desceram ladeiras, chegando ao recanto sagrado, onde milhares de pessoas preenchiam todos os espaços, apertando-se. (...) E o cortejo desceu a escadaria do jardim monumento, adentrando-o sob aplausos, atravessando uma ala solene. Os ataúdes repousaram diante da cabana. (...) E Euclides estava entre nós, graças à soma de esforços e de entrosamento de autoridades e povo. Foram rápidas as palavras de poucos oradores. (...) A família de Euclides carregou, acarinhando, e pela última vez, os restos de seus antepassados, pelos caminhos de pedras que, harmoniosamnte, ligaram o jardim velho ao novo. E subiu a laje de concreto do belo mausoléu florido, acompanhada de autoridades. / O sol poente, irradiante, dourava a cena. A multidão silenciou-se. Incomum silêncio! Nem o vento farfalhou folhas, ou encrespou o rio. / Muitos atiradores perfilados atiraram, homenageando nosso herói, que descia ao leito para o repouso eterno, acompanhado do filho, embalados pelo canto coral de cem vozes, interpretando o "Sepulto Domino", do Padre José Maurício, e o "Agnus Dei", da Missa Nordentina, de Lindembergue Cardoso. Lágrimas de emoção. O canhão estilizado de concreto - a matadeira - correu sobre a caixa-sepulcro, fechando-a para sempre. / Estava encerrada a cerimônia do traslado, que teve sua semente plantada nos anos 40. / (...) Todos se foram. O sol se aconchegou, sonolento , no côncavo das montanhas. (...) / Silêncio. Noite. O rio canta e acalanta os dois viajores cansados. Acendem-se os refletores. (...) Euclides mata saudades, aconchegado ao filho. Descansam à margem esquerda do rio."

 

14 de agosto de 1983.

"(...)

— A senhora poderia me informar sobre a disputa atual entre São José e Cantagalo, reivindicando o cérebro de Euclides? / — (...) / — Dos restos mortais, eu sei. Eu quero saber quem ficará com o cérebro? / — Uai, será que o crânio ficou lá no Rio, no túmulo do cemitério São João Batista? / — Eu estou falando do cérebro, não do crânio! / — Ele não estava dentro? / — Não! Ele está no formol há setenta anos e quatro meses, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, no Departamento de Antropologia! A senhora não sabia? / — Juro que não (...) / (...) Vou desligar porque isso é trote! / O repórter que falava com uma funcionária da Casa Euclidiana ligou, logo depois, para a professora Carmem, não a encontrando. / E foi através de pequenas e grandes reportagens de jornais e revistas que os rio-pardenses souberam do justo interesse de Cantagalo em possuir aquele órgão nervoso. (...) / (...) As recentes reportagens serviram para dar conhecimento, a quase todos os brasileiros, desse cérebro insepulto, emergido das profundezas do esquecimento, retirado durante a autopsia pelo dr. Edgar Roquete Pinto, para estudo comparativo entre inteligência e peso do cérebro. (O de Einstein, comparado ao cérebro de um mendigo, não teve nenhuma diferença morfológica (...). / Em setembro, o famoso cérebro, quase esquecido num armário do Museu Nacional, será trasladado para Cantagalo, onde, finalmente, será depositado sob o singelo monumento a Euclides, na arborizada e calma Praça dos Melros. (...)".

 

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